"Abençoado seja o Humano que busca Deus à sua própria maneira, ainda que eles estejam em algum prédio, entoando canções ou cultivando doutrinas, que podem ser fabricadas pelo homem.
Na realidade, eles empregam todo o seu coração e a sua compaixão, na busca de Deus.
Que eles não sejam julgados por seus irmãos e irmãs, por este motivo, pois são igualmente amados por Deus."

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A História de Michael Thomas e os Sete Anjos IV


A Primeira Casa

O dia seguinte amanheceu um pouco cinzento, mas Mike estava animado. Com os escassos fundos que tinha reservado, permitiu-se tomar um bom pequeno-almoço na esplanada de um café local. Sentia-se estranho por estar na rua a essa hora, já que, habitualmente, estava no escritório, acostumado a trabalhar duramente durante todo o dia e a almoçar uma sandes sentado em frente do escritório. Quando o Sol se punha, ainda ele estava no interior do edifício.
Quando saiu da cafetaria, com as maletas nas mãos e a bolsa pendurada no ombro, Mike perguntou-se que caminho deveria tomar exactamente. Sabia que não podia ir para Oeste, pois rapidamente chegaria ao oceano. Assim, optou por ir para Este, pois não tinha alternativa. Mike, naturalmente, sentia-se muito bem ao iniciar uma viagem baseada na fé… embora desejasse ter um destino mais claro.
- Se ao menos tivesse algum indício do caminho a tomar!... Talvez um mapa ou uma indicação da minha
posição actual - disse Mike enquanto caminhava devagar para Este, atravessando lentamente os subúrbios de Los Angeles até aos limites de uns bairros aparentemente intermináveis. Pensou:
- Vou levar semanas a sair daqui!
Verdadeiramente, não sabia para onde ia, mas continuou para Este. À hora do almoço, sentou-se na beira de uma vala e comeu as sobras que guardara do pequeno-almoço. Uma vez mais se perguntou se ia pelo caminho correcto.
- Se estás aí, preciso de ti agora! - exclamou Mike em voz alta, em direcção ao céu. - Onde está a porta do caminho?
- Terás um mapa actualizado.
Mike ouviu uma voz familiar que lhe falava ao ouvido. Levantou-se e olhou à sua volta, mas não viu ninguém.
Mas reconheceu a voz do anjo que tinha conhecido.
- Ouvi isso realmente ou foi impressão minha? – murmurou Mike com uma sensação de alívio. Finalmente, havia comunicação. - Por que demoraste tanto? – acrescentou com uma ponta de humor.
- Só agora pediste ajuda – disse a voz.
- Mas… Andei horas às voltas!
- Essa foi a tua escolha. Porque levaste tanto tempo a verbalizar o teu pedido?
Era evidente que a voz tinha um matiz divertido, ao responder à observação de Mike.
- Estás a dizer que só tenho ajuda quando a peço?
- Sim, claro!... És um espírito livre, respeitado e poderoso, capaz de escolher o teu próprio caminho, se assim o decidires. Aliás, é o que tens feito durante toda a tua vida. Nós sempre estivemos aqui, mas só actuamos quando pedes…. Parece-te assim tão estranho?
Mike sentiu-se momentaneamente irritado com a lógica absoluta das palavras do anjo.
- Bom, diz-me, para onde devo ir? Já passa do meio-dia, e levei a manhã toda a adivinhar para onde tenho de ir.
- Adivinhaste bem – respondeu a voz com ironia implícita -. A porta do caminho está precisamente na tua frente.
- Quer isso dizer que ia por bom caminho?
- Não te surpreendas demasiado por ires na direcção correcta. Fazes parte do Todo, Michael Thomas de Propósito Puro. Com a prática, a tua intuição será muito eficaz. Hoje, estou aqui unicamente para te dar um pouco de orientação. – A voz fraquejava -. Olha bem na tua frente… Sim, já estás no umbral!
Mike estava junto de uma sebe que ia dar a um barranco, ladeado por fileiras de casas.
- Não vejo nada.
- Olha outra vez, Michael Thomas.
Mike olhou para o arbusto e, pouco a pouco, foi-se apercebendo de que ali estava a silhueta de uma porta.
Passava despercebida porque estava completamente camuflada e parecia fazer parte da estrutura total da planta. Mike pensou que era impossível não ver a porta, mesmo querendo não ver. Era tão evidente! Desviou o olhar por um momento e logo voltou a olhar, com uma nova percepção. Continuava ali, mais evidente do que antes.
- O que está a acontecer? - perguntou Mike, consciente de que a sua percepção tinha mudado.
- Quando as coisas ocultas se tornam óbvias – disse a voz doce – já não podes regressar à ignorância. Agora, verás todas as portas com claridade, posto que exprimiste essa intenção.
Ainda que Mike não pudesse compreender totalmente o que estava a receber, estava completamente preparado para empreender o principal caminho da sua viagem. A sebe deixou de parecer uma porta e, de facto, converteu-se numa! Mesmo em frente dos seus olhos, estava a alterar-se e a definir-se.
- Isto é um milagre! – sussurrou, enquanto continuava a observar como a alta sebe se transformava numa porta tangível. Recuou um pouco para permitir que o fenómeno dispusesse de suficiente espaço.
- De facto, não é um milagre – replicou a voz -. O que acontece é que o teu propósito espiritual modificou- te um pouco, e as coisas que vibram no teu novo nível entraram, simplesmente, no teu campo de visão. Isso não é um milagre. Muito simplesmente, é assim que funciona.
- Estás dizer-me que a minha consciência pode transformar a realidade?
- Semântica!... A realidade é a essência de Deus, e é constante. A tua consciência humana só revela aquilo que desejas experimentar. À medida que vais mudando, uma parte cada vez maior vai-se tornando evidente.
Então, podes experimentar as numerosas revelações novas e utilizá-las como quiseres. No entanto, não poderás voltar para trás.
Mike começava a compreender. Mas, antes de iniciar o caminho atravessando a porta que acabava de se revelar ante os seus olhos, ainda queria fazer mais uma pergunta. Sempre tivera a tendência para analisar tudo em função da verdade, e isto incluía a doce voz que, agora, estava a ouvir na sua mente. Pensou um pouco e perguntou o seguinte:
- Disseste que sou uma criatura de livre-arbítrio. Então, porque não posso voltar para trás, se assim decidir?...
O que acontece se preferir ignorar a nova realidade e voltar a uma mais simples?... Acaso não é isso livre-arbítrio?
- É a física da espiritualidade que cria um axioma que estabelece que tu jamais poderás regressar a um estado de menor consciência – replicou a voz -. No entanto, se escolhes activamente ir nessa direcção, então estás a negar a iluminação que te foi dada, e irás desequilibrar-te. Podes, é claro, tentar retroceder. É o teu livre-arbítrio. Mas é triste que haja Humanos que tentem ignorar aquilo que sabem ser a verdade, porque não continuarão a ter, durante muito mais tempo, um índice vibracional dual.
Mike não compreendeu completamente a nova informação espiritual que a voz lhe dera. Não obstante, recebera a resposta à sua pergunta. Sabia que podia dar meia volta e regressar à cidade. A escolha era sua.
Mas, enquanto estivesse ali, continuaria a ver a porta. Se optasse por ignorá-la, apesar de saber que existia, era provável que se desequilibrasse e, sem dúvida, adoeceria. De algum modo, tudo isto fazia sentido, e o seu desejo era avançar, não retroceder.
Desta forma, pegou nas maletas e na bolsa e cruzou a porta que significava o início da sua viagem. Esse caminho era um simples carreiro de terra, similar a qualquer caminho de qualquer barranco. Estava emocionado, e pôs-se em marcha, deixando para trás, rapidamente, a porta aberta.
Logo de seguida, uma figura esverdeada, sinistra e indefinida, deslizou atrás dele, passando também pela porta. Assim que passou, pisou o arbusto que definhou imediatamente. Se Mike não se tivesse adiantado terse-ia dado conta da sua presença e do fedor que desprendia. Rapidamente, esta figura começou a seguir Mike, mantendo-se fora da sua vista, mas acompanhando o seu passo impetuoso. Como era um espectro astuto e veloz, Aquilo seguia Mike ensombrando o seu ímpeto e a sua alegria com a mesma quantidade de ódio e propósitos obscuros. Mike não podia sequer imaginar que Aquilo existia.
Pouco depois de se ter posto a caminho, o panorama e, inclusive, a percepção do terreno, mudaram ostensivamente.
Já não conseguia ver a gigantesca cidade de Los Angeles, nem a enorme quantidade de prédios
da área suburbana. De facto, não havia qualquer indício de civilização, como, por exemplo, postes de telefone, aviões e auto-estradas. Tomara, com entusiasmo, aquele caminho não asfaltado que se abrira na sua frente, e avançara sem pensar, como uma criança que abre os seus presentes de Natal. Então, apercebeu-se de que, passo a passo, ia entrando profundamente noutro mundo. A viagem estava levando-o a uma realidade
que ainda estava longe de apagar e que acabara de experimentar. Mike perguntou-se se não se encontraria num lugar entre a Terra e o Céu, onde começaria a sua aprendizagem espiritual. Tinha dado como certo que esse processo não tardaria, o que o prepararia para a honra de regressar ao Lar. O caminho, parecido com um carreiro, começou a alargar-se gradualmente até que ficou da largura de uma estrada. Não apresentava quaisquer vestígios de pegadas, e era muito fácil de seguir.
Subitamente, Mike olhou à sua volta. O que era aquilo?... Os seus olhos captaram uma imagem verdeescuro que se movia rapidamente, e que correu apressadamente para a esquerda, ocultando-se atrás de uma rocha, grande e redonda.
- Deve ser a fauna local - pensou.
O caminho que tinha percorrido até agora era um reflexo exacto do lugar para onde agora se dirigia: uma estrada larga que se escondia e voltava a aparecer, desaparecendo no horizonte, colina após colina.
O caminho percorrido desenrolava-se num campo exuberante e magnífico, cheio de árvores, prados verdejantes e florações entre as rochas. As flores salpicavam a paisagem como infinitos pontos de cor luminescente, situados exactamente nos lugares precisos daquele tapete da Natureza.
Mike parou para descansar. Não trazia relógio mas, ao observar na posição do Sol, calculou que seria hora de almoço. Sentou-se à beira do caminho e comeu os restos do substancial pequeno-almoço, que guardara para a próxima fome. Olhou à sua volta e apercebeu-se da tranquilidade.
- Não há pássaros - pensou. Olhando para o chão mais de perto, acrescentou. - E também não há insectos!
Este lugar é realmente estranho. - Mike observava tudo quando sentiu uma ligeira brisa no cabelo. «Bom, pelo menos, há ar! - Olhou para o céu e contemplou o azul nítido de um dia magnífico e renovador.
Apercebeu-se que não havia mais comida, mas também sabia que não estava sozinho e que, de um modo ou outro, Deus lhe daria sustento. Recordou a história de Moisés no deserto, o qual tinha percorrido durante 40 anos juntamente com as tribos de Israel. Recordou que esses nómadas receberam o alimento do céu, e reflectiu sobre esta história, perguntando-se se seria verdadeira. Pensou: Todas aquelas famílias que seguiram Moisés tinham adolescentes refilões, tal como temos hoje. E imaginava-os a queixarem-se aos seus respectivos pais: - Eh! Já é a oitava vez que estamos na mesma rocha, desde que nascemos! Por que confiam nesse tipo, esse tal Moisés?... O homem só nos faz andar em círculos! Ele não pode ser assim tão sabedor!
Será que ainda não percebem isso?
E riu-se enquanto imaginava a cena. Então, perguntou-se se, dentro em pouco, veria essa rocha… que também lhe indicaria que estava a andar em círculo! Não tinha a menor ideia para onde se dirigia, tal como os israelitas no deserto e também não tinham que comer! A semelhança entre ambas as situações ainda lhe deu mais vontade de rir.
Talvez porque o riso tivesse sido respeitado ou, simplesmente, porque se tratava do momento propício, a verdade é que ao sair da curva seguinte do caminho de terra, Mike, viu-a. Era a primeira Casa, de cor azul brilhante. Pensou:
- Céus!... Se Frank Lloyd Wright visse isto, daria um grito! - E, rindo-se para dentro, acrescentou: «Espero não ter sido irreverente!» A verdade, porém, é que nunca tinha visto uma Casa azul. O caminho levava directamente à porta, e assim soube e reconheceu que estava diante da sua primeira paragem. Além disso, era evidente que não havia qualquer outra edificação nos arredores.
À medida que Mike se aproximava da pequena casa de campo, pôde apreciar que a sua cor era azul metálico e que, do seu interior, saia uma luz difusa. Enquanto percorria o caminho até à porta, reparou num pequeno sinal que identificava a Casa como CASA DOS MAPAS. Reconheceu, de imediato, que era isso, precisamente, que tinha pedido. Talvez o resto da viagem não tivesse tantas incertezas. Um mapa actualizado podia ser um instrumento valioso nesta estranha terra.
A porta da Casa abriu-se subitamente para dar passagem a uma criatura alta e bonita… de uma cor azul que se harmonizava perfeitamente com o azul da Casa. Era, evidentemente, uma entidade angélica pois, tal como o anjo da visão, ultrapassava a realidade e era maior do que um Ser Humano. A sua presença enchia o ar de uma sensação de esplendor e de uma essência floral. Uma vez mais, Michael conseguia aperceber-se da fragrância que emanava da entidade. Então, este grande ser azul, postou-se na sua frente.
- Bem-vindo, Michael Thomas de Propósito Puro! Estávamos à tua espera.
Diferentemente do anjo da visão, a cara deste ser era perfeitamente visível, e Mike pôde ver nela uma sensação de bem-estar e de alegria que parecia ser contínua, dissesse o que dissesse. Sentiu-se agradado pela sua companhia e mostrou-se respeitoso perante a situação. Saudou o anjo: - Bem-vindo tu também, grande ser azul.
Mike engoliu em seco. E se o anjo não gostasse que lhe chamassem azul?... E se a sua cor azulada fosse somente um produto da mente humana e ele, de facto, não fosse azul?... «Talvez até nem goste dessa cor!»
Mike suspirou ante a lista de «E se…» que estava a passar pela sua mente humana.
- Sou Azul para todos os seres, Michael Thomas de Propósito Puro – disse, pensativo, o anjo - e aceito as tuas boas-vindas com alegria. Por favor, entra na Casa dos mapas e prepara-te para passares aqui a noite.
Desta vez, Mike alegrou-se por o anjo ter lido os seus pensamentos. Ou, mais do que lê-los, podia sentilos, tal como lhe tinha dito o anjo da visão!... Em qualquer caso, alegrou-se por não ter ofendido o guardião da primeira Casa.
Mike e o anjo, duas entidades diferentes reunidas, entraram na Casa Azul. Mas, enquanto a porta se fechava atrás deles, dois olhos descomunais, penetrantes, coléricos e vermelhos vivo, que os espiavam atentamente, um pouco para a esquerda da entrada da Casa, demonstravam estar muito alerta. Não se cansavam, e eram muito pacientes e silenciosos. Não se mexeriam nem pestanejariam até verem que Michael Thomas estava pronto para recomeçar a sua viagem.
Ao entrar em Casa, assombrou-se com o que viu. O interior da estrutura era imenso. Parecia interminável, ainda que o seu exterior fosse modesto e humilde. Lembrou-se que o anjo da visão lhe dissera que as coisas podiam não ser o que pareciam, e era evidente que isto fazia parte da nova e estranha realidade da sua consciência. E fez conjecturas acerca de esta nova percepção: Teria um significado mais amplo?
Seguindo o anjo, Mike percorreu os amplos vestíbulos da Casa dos Mapas. O interior lembrava o de uma biblioteca de primeira categoria, parecida com algumas das ilustres bibliotecas europeias, onde estão classificados importantes livros históricos, de todos os tipos. No entanto, em lugar de estantes com livros, nas paredes havia dezenas de milhar de cubículos, cada um dos quais parecia conter algo que Mike identificou como um pergaminho. As paredes pareciam não ter fim, e havia cubículos em ambos os lados de cada vestíbulo que ia cruzando, com vários andares de altura. Embora não pudesse ver de perto os cubículos, era possível que contivessem mapas, já que o nome da Casa assim o indicava. Mas, porque havia tantos?... O percurso pelas gigantescas salas parecia no ter fim. Pelo caminho, não se encontrou qualquer ser vivo.
- Estamos sozinhos? - perguntou.
O anjo voltou-se para ele, sorriu e disse:
- Depende do que queres dizer com esse «sozinhos». Estás a ver os contratos que cada Ser Humano estabelece com o planeta.
Dito isto, continuou a andar com naturalidade. Mike parou e olhou à sua volta, reagindo com assombro ao que o anjo acabara de lhe dizer. A distância entre eles aumentou, dado que o anjo continuou a andar. Ao ver que Mike não o seguia, parou, voltou-se e esperou pacientemente, sem dizer nada. Mike viu as escadas apoiadas contra enormes paredes com vários andares, cheias de intermináveis cubículos de madeira que continham pergaminhos, uns ao lado dos outros. O anjo tinha-lhes chamado «contratos».
Mas, o que significava isso?
- Não percebi nada do que me disseste – exclamou Mike enquanto alcançava o anjo.
- Antes de terminares a tua viagem, compreenderás – respondeu o anjo com uma voz reconfortante -. Aqui não há nada que seja aterrador, Michael. Tudo está em ordem, a tua visita era esperada e respeitamo-la. O teu propósito é puro, e todos nós podemos constatar isso. Relaxa e desfruta do nosso amor. As palavras do ente azul impressionaram Mike verdadeiramente. Ninguém, em todo o Universo, poderia dizer algo melhor do que ele acabara de dizer. Começara Mike a sentir com maior intensidade?... O anjo da visão tinha-lhe dado um pouco das mesmas vibrações amorosas, mas agora estava a sentir uma reacção emocional que superava qualquer outra que já experimentara.
- Ser amado é uma sensação maravilhosa, não é verdade, Michael?
O anjo azul caminhava novamente junto de Mike e era muito mais alto de que ele.
- O que é este sentimento - perguntou Mike calmamente. Estou quase a chorar.
- Estás mudando para outra vibração, Michael
- Não entendo o que isso quer dizer… Eh!... o senhor tem nome?
Mike novamente se perguntou se teria ofendido aquele ser. E se fosse um anjo feminino?... Mike nada sabia acerca deste tipo de coisas, mas o porte e a aparência do anjo poderiam ser perfeitamente femininos.
- Chama-me simplesmente Azul – respondeu o anjo piscando o olho -. Eu não tenho género, mas, pelo meu tamanho e pela minha voz, a tua mente deduz que sou do género masculino. Para mim, está bem que me trates como tal. - Fez uma pausa para que Mike pudesse captar o que fora dito e, continuou: A tua estrutura celular de Ser Humano pode existir em diversos índices vibratórios, Michael. O índice vibratório a que estás habituado é, digamos assim, o nível número um. Habituaste-te a ele, que te serviu dignamente. Todavia, nesta viagem é preciso que vás mais longe, que passes a um índice vibratório de valor seis ou sete, para assim poderes avançar até à tua meta. Neste momento estás a mudar para o que poderíamos chamar o «índice dois», dado que não termos um nome melhor para lhe dar. Como já te disse, cada índice vibratório implica
uma maior consciência da verdadeira realidade de Deus. O que estás a sentir agora é a consciência do amor. O amor é tangível, Michael. Tem propriedades físicas e é poderoso. O teu novo índice vibratório permite-te senti-lo muito mais, como nunca tinhas sentido. É a essência desta Casa, e irá intensificar-se à medida que fores visitando cada uma das outras Casas.
Mike estava encantado por ouvir Azul. Esta fora a explicação mais longa e, também, a mais clara, que tinha recebido até ao momento.
- És um mestre? – perguntou?
- Sim, cada um dos anjos das Casas existe com essa finalidade, excepto o da última. Terei de te fazer várias revelações que dizem respeito à minha Casa, e os outros anjos farão o mesmo. Quando tiveres terminado a viagem, a tua visão de conjunto acerca de como funcionam as coisas no Universo será muito maior do que a que tens agora. A minha missão é proporcionar-te parte daquilo que te tornaste merecedor por teres expressado o teu propósito. Estás aqui, na minha Casa, para receber o mapa do teu contrato. Amanhã cedo, antes que tu prossigas o teu caminho, mostrar-to-ei e responderei a algumas perguntas. É muito importante que esta Casa seja a primeira, porque te ajudará na tua viagem. De momento, convido-te a que desfrutes
dos nosso presentes que consistem em sustento e descanso.
De novo, Mike seguiu o anjo, a quem começava a sentir como se fosse um velho amigo… ainda que muito azul. Entraram num bonito jardim interior onde todos os frutos e vegetais, todos os canteiros e hortas eram cultivados utilizando uma meticulosa agricultura. A luz, tal como em todas as outras salas, entrava a jorros pelas clarabóias do tecto, enchendo cada zona de uma essência exterior natural. Mike também podia detectar o cheiro do pão cozendo no forno, que provinha de outra zona do imóvel.
- Quem se encarrega da manutenção desta Casa? – perguntou Mike -. Só te vejo a ti, aqui. Tu comes?
- Cada Casa tem espaços como este, Michael. E, não, eu não como. Este jardim existe exclusivamente para os Humanos que, como tu, estão a fazer este caminho, dedicam um tempo a esta experiência de aprendizagem e passam por aqui. O jardim tem muitos zeladores, só que agora não podes vê-los. Enquanto percorreres o teu caminho de conhecimento, não te faltará sustento, saúde e alojamento. Esta é a nossa forma de te
honrar e respeitar o teu propósito!
Mike começou a sentir a agradável sensação de estar protegido, enquanto iam visitando outras salas… com o Ser Humano seguindo sempre o ente azul.
Finalmente, chegaram a uma zona singular de descanso, composta por dependências privadas, providas de uma fantástica cama de dossel e memoráveis lençóis brancos, que convidavam Mike a deixar cair sobre eles o seu corpo fatigado. As fofas almofadas chamavam a sua atenção, oferecendo-lhe a comodidade e a segurança de um sono profundo. Mike esta espantado com o nível de organização que reinava naquela Casa. Então, perguntou espantado:
- Tudo isto é para mim?
- Para ti e para todos os outros, Michael. Tudo isto foi preparado para que qualquer um que tenha o mesmo propósito do que tu.
Na sala contígua havia um banquete tal, que Mike jamais conseguiria consumi-lo todo, por muito que tentasse.
Era composto pela comida mais suculenta que jamais vira e em demasia para uma só pessoa.
- Come o que quiseres, Michael – disse o anjo – que nada se desperdiçará. Mas não guardes o que sobrar; resiste à tentação de levar. Isso faz parte de uma prova do teu processo, e é algo que entenderás mais tarde.
Azul deixou-o sozinho e saiu do recinto. Mike pousou a sua bagagem, sentou-se e pôs-se a comer como raramente tinha comido. Teve cuidado para não cair na gulodice, mas comeu do delicioso manjar até estar satisfeito. As pálpebras começaram a fechar-se, e o ambiente proporciona um grau de comodidade que Mike não voltara a experimentar desde o tempo de criança, ao cuidado dos seus carinhosos pais.
- Se pudesse conservar esta sensação! - pensou. Até o facto de ser Humano valera a pena. Levantou-se da mesa pensando que lavaria os pratos sujos no dia seguinte de manhã. Sentia-se tão cansado! Conseguiu tirar a roupa com dificuldade, e pendurou-a nos cabides da parede. Caiu redondo na cama e rapidamente foi possuído pela cálida abrangência de um sono tranquilo.
Na quietude da manhã, Mike levantou-se sentindo-se incrivelmente renovado. Lavou-se e dirigiu-se à zona do restaurante, onde constatou que já tinham levantado a mesa. No lugar dos pratos sujos do jantar, estava um fantástico pequeno-almoço.
Em parte, tinha acordado com o cheiro de batatas fritas e dos ovos estrelados, e com o aroma delicioso de um pão acabadinho de cozer. Comeu sozinho, e naquele silêncio novamente se perguntou se a sua decisão de voltar para Casa fora correcta:
- Será um erro querer sair da experiência terrena?... O que acontecerá àqueles que deixamos para trás?
Eles não teriam a capacidade de experimentar os níveis de progresso vibratório que ele podia atingir. Seria justo?... Começou a ser invadido por um sentimento de melancolia ao pensar nos seus amigos e nos seus companheiros de trabalho. Estava até preocupado com a sua ex-amante! E perguntou-se:
- O que é que está a acontecer?... Começo a sentir empatia com toda a gente. Isto não costumava acontecer-me. É verdadeiramente doloroso!... Começo a lamentar o facto de possuir algo que os outros não têm.
Quer isto dizer que estou errado?... Deveria voltar para trás?
Subitamente, Azul apareceu no umbral da porta e disse:
- É inevitável que te faças essa pergunta, Michael. Uma vez mais, o anjo sintonizara com os sentimentos de Mike. Embora sobressaltado, Michael adorou ver Azul e deu-lhe as boas-vindas com um aceno de cabeça.
Disse:
- Fala-me dessas coisas, Azul. Com toda a honestidade, preciso de orientação. Começo a questionar se fiz
o que deveria ter feito.
- O trabalho do Espírito é maravilhoso, Michael Thomas de Propósito Puro – disse Azul -, e o postulado da iluminação é este: primeiro, ocupa-te de ti mesmo, e a dignidade da tua viagem será transmitida àqueles que te rodeiam de uma maneira sincrónica, dado que o propósito de uma pessoa sempre afectará muitas outras.
- Uma vez mais, tenho dificuldade em compreender totalmente o que dizes, Azul – replicou Mike, confuso.
- Ainda que não o compreendas neste momento, Michael, as tuas acções afectarão os outros, dando-lhes a oportunidade para tomarem as suas próprias decisões. Não teriam essas opções se tu não tivesses decidido estar aqui, agora. Confia na verdade destas coisas, e não te recrimines.
Mike sentiu que o seu Espírito se libertava de um grande peso. Embora Azul não tivesse conseguido que ele compreendesse por que as coisas funcionam espiritualmente, a afirmação do anjo chegava-lhe, e isso fazia com que se sentisse com mais determinação para seguir em frente. Então, recolheu os seus pertences e saiu do restaurante privado e da zona de dormitórios. Entrou no enorme vestíbulo que desembocava na porta pela qual passara, no dia anterior, vindo do exterior. Azul caminhava lentamente atrás dele, enquanto Mike se maravilhava com a imensidade de tudo o que o rodeava. O anjo não disse nada quando reparou que
a sua bolsa mostrava umas protuberâncias: sabia que eram pães e bolos!
- Onde vamos? – perguntou Mike -. Sigo nessa direcção.
Sabia que tinha de receber o seu próprio mapa e queria que Azul o levasse até ele. Mas Azul disse:
- Espera aqui.
Os dois pararam no centro de um enorme vestíbulo azul, profusamente adornado. Azul dirigiu-se em silêncio para uma parede afastada, perto de uma escada e disse:
- Chega aqui, Michael.
Mike obedeceu e, num ápice, Azul fê-lo subir a escada até ao cubículo específico onde se encontrava o seu mapa. À medida que ia subindo, agarrado ao corrimão, notou que havia um nome escrito em cada cubículo embutido na parede. Na verdade, havia dois nomes em cada compartimento: um deles parecia escrito em caracteres árabes e o outro em caracteres romanos. Em lugar de estarem ordenados alfabeticamente, esses cubículos estavam dispostos segundo um sistema que Mike desconhecia, mas que, sem dúvida, era familiar a Azul. Este, tinha-lhe dito, exactamente, onde procurar e, agora, Mike estava a uma curta distância do compartimento
que Azul lhe indicara.
Finalmente, vi-o. O compartimento tinha escrito «Michael Thomas», junto de outro letreiro escrito em estranhos caracteres, tal como os outros compartimentos. Mike pensou: «Provavelmente, estão escritos na linguagem angélica». Tinham-lhe dado as seguintes instruções: não olhar para o que estava à sua volta, tirara o pergaminho do compartimento correspondente e descer para o examinar. Mike acabava de o tirar do cubículo e começara a descer a escada quando os seus olhos se fixaram noutro de nomes. Sentiu que o seu coração
parara! Os nomes dos seus pais também estavam ali! A disposição dos pergaminhos era em grupos familiares! Era nisso que consistia o sistema espiritual utilizado no enorme vestíbulo. Mike sabia que estava absolutamente proibido de tocar no pergaminho de outra pessoa; no entanto, ficou ali por uns momentos para examinar alguns dos nomes que não faziam sentido para ele.
- Por que estão esses outros nomes, junto dos da minha família?
- Michael! – chamou Azul, de baixo.
- Vou já, senhor! – respondeu um tímido Mike. Azul sabia o que ele estava a pensar, mas Mike não queria formular um tipo de pergunta capaz de romper o protocolo daquele lugar sagrado. Pensativamente, desceu a longa escada azul e entregou o pergaminho a Azul. Este, olhou para Mike durante um bom bocado, e na sua firme expressão não havia segredos: transmitia a sua gratidão por este ter respeitado a sacralidade do sistema.
Mike sentiu que o amor de Deus inundava todo o seu ser, e ambos sorriram amplamente em face daquela comunicação sem palavras. Mike começava a sentir que as palavras já não eram necessárias. Era comos e conseguisse comunicar a Azul tudo quanto quisesse, sem emitir qualquer som. E pensou.
- Isto é estranho!
- Não tão estranho como aquilo que irás ver, em breve. – disse Azul em resposta aos seus pensamentos.
- Caramba!... Aqui não tenho hipóteses! - pensou Mike.
Azul ignorou este último pensamento. Colocou o pergaminho sobre uma mesa e virou-se para Mike.
- Michael Thomas de Propósito Puro - disse formalmente -, este é o mapa da tua vida. De uma forma ou de outra, levá-lo-ás contigo, a partir de agora. É-te dado com muito amor e é uma das coisa mais valiosas que jamais possuirás.
Logo Mike recordou as palavras do anjo da visão do hospital a propósito de que a Nova Energia seria muito mais activa do que antes. Então, Mike fez a pergunta inevitável:
- É uma mapa actualizado?
- Mais actualizado do que poderias desejar – foi a fantástica resposta do alto ser de cor azul. Mike ficou até com a sensação de que Azul se ria dissimuladamente.
Azul, sem pronunciar uma palavra, entregou o mapa a Mike, convidando-o a examiná-lo. Mike pegou nele e apertou-o contra o peito, durante um momento, desfrutando daquele presente, como se fosse uma criança.
Sentiu o carácter sagrado do momento, e abriu o mapa com tal cerimónia que fez sorrir Azul, que sabia o que ia acontecer.
Qualquer reacção de assombro ou expectativa desapareceu enquanto Mike desenrolava o pequeno pergaminho.
Estava em branco!... Ou não?... Precisamente no centro do pergaminho, visível apenas através de um cuidadoso exame, encontrava-se um grupo de símbolos e letras. Mike inclinou-se e observou de perto aqueles caracteres agrupados. Uma seta assinalava um pequeno ponto vermelho. Junto desse ponto estavam a palavras: Estás aqui. Ao lado, havia um pequeno símbolo que representava uma casa de campo, no qual se podia ler: «Casa dos Mapas». Ao lado deste, havia uma pequena zona profusamente detalhada, de cerca de três centímetros, que continha o caminho percorrido por Mike até ao momento. E acabava ali… sem mais!...
O mapa só mostrava onde ele estava naquele momento, e detalhava, unicamente, uma pequena zona que se estendia, mais ou menos, por cem metros em cada direcção.
- O que é isto? – inquiriu Mike, sem muito respeito. - Trata-se de uma piada angélica, Azul?... Percorri todo este caminho até à Casa dos Mapas para receber um maravilhoso pergaminho sagrado que me diz que… estou na Casa dos Mapas?
- As coisas nem sempre são o que parecem, Michael Thomas de Propósito Puro. Guarda este dom e leva-o contigo.
Na realidade, Azul não estava a responder à pergunta. Mike apercebeu-se intuitivamente que não seria boa
ideia voltar a fazê-la, pelo que enrolou aquele inútil mapa e guardou-o na mochila. Estava claramente decepcionado.
Azul, seguido por Mike, percorreu, de novo, o caminho que levava à porta principal e saiu para o ar livre.
O anjo dirigiu-se a Mike, dizendo:
- Michael Thomas de Propósito Puro, devo fazer-te uma pergunta, antes de continuares a viagem para Casa.
- Diz, meu amigo azul, qual é a pergunta?
- Michael Thomas de Propósito Puro, amas Deus? – Azul estava muito sério. Mike achou estranho que o anjo da visão do hospital também lhe tivesse feito a mesma pergunta, e quase no mesmo tom. E perguntou se qual seria o significado desta repetição.
- Querido e esplendoroso mestre azul, dado que podes ver o meu coração, já sabes que amo Deus, sem qualquer dúvida.
Mike olhou de frente para o anjo, enquanto lhe dava a sua sincera resposta.
- Que assim seja – disse Azul e entrou na pequena casa azul-cobalto, fechando a porta com firmeza.
Mike tinha uma sensação de repentina desconexão e perguntou-se:
- Esta gente alguma vez dirá adeus?!
* * *
O tempo estava agradável e aromático. Mike pegou na sua bagagem e na bolsa com víveres, entre os quais estavam os bolos e o pão que tinha guardado na Casa Azul, e meteu pelo caminho de terra, numa direcção que sabia que o conduziria a outra Casa de aprendizagem. Começou a relembrar a lista de todos os elementos humorísticos que faziam parte dos acontecimentos ocorridos na Casa dos Mapas, e pensou:
«Imagina!... Um mapa que só te diz onde estás nesse preciso momento! Que inutilidade!... É evidente que já sei onde estou. Que lugar mais estranho, este!
Ecos dos risos soaram nas colinas, enquanto Michael Thomas de Propósito Puro fazia participar da alegria da sua situação, as árvores e as rochas, à medida que prosseguia a sua viagem para Casa.
Os seus risos também chegaram às orelhas verdes, cobertas de verrugas, do ente tenebroso que o seguia, somente a duzentos metros de distância. Mike não tinha a menor ideia de que a dita forma obscura tinha esperado pacientemente que ele retomasse o caminho e, uma vez mais, estava a seguir os seus passos. O ente não projectava alegria, somente a determinação de que Michael Thomas jamais chegaria à última Casa. Já tinha concebido a sua estratégia que consistia em reduzir a distância entre ele e Michael Thomas de Propósito Puro.

domingo, 29 de maio de 2011

A História de Michael Thomas e os Sete Anjos III

A Preparação
(Começa a Viagem)

- Incline a cabeça para a esquerda, para a bandeja! - gritou a enfermeira para o paciente.
- Ele está a vomitar.
- Nessa noite, a sala de emergência do hospital, como sempre às sextas-feiras, estava a abarrotar.
Desta vez a lua cheia também complicou bastante. Embora não possuíssem qualquer conhecimento sobre astrologia ou outro assunto metafísico, a maioria dos hospitais tinha o hábito de colocar mais funcionários nas Urgências nessa época do mês. Parecia que ocorriam coisas que não aconteciam noutras alturas. A enfermeira correu para fora do quarto para atender outra chamada urgente.
- Ele está consciente? - perguntou o vizinho que tinha acompanhado Mike até o hospital. O enfermeiro de bata branco baixou-se para examinar atentamente os olhos de Mike.
- Sim. Está a acordar. Quando conseguir conversar com ele, não o deixe levantar-se. Está com um corte muito feio na cabeça e levou alguns pontos, além do maxilar que ainda vai doer durante bastante tempo. A radiografia mostrou que está praticamente fracturado. Felizmente conseguimos corrigir o desvio do osso, enquanto ele estava inconsciente.
O enfermeiro saiu do cubículo, uma área separada por uma cortina presa numa armação semicircular. Ao sair fechou a cortina novamente, para que Mike e o seu vizinho pudessem ficar sozinhos. Os sons da ala de emergência eram quase imperceptíveis, embora o vizinho conseguisse ouvir as pessoas e as actividades nos cubículos de ambos os lados. À esquerda, estava uma mulher, vítima de uma punhalada; do lado direito, estava um senhor idoso com falta de ar e um braço inchado. Estavam ali há tanto tempo quanto Mike – cerca de uma hora, aproximadamente.
Mike abriu os olhos e sentiu uma forte dor no maxilar inferior. Soube imediatamente que estava acordado.
«Acabou-se o sonho com anjo», pensou, assim que a forte dor e toda a situação se transformaram lentamente em realidade. A iluminação fluorescente que iluminava a sala com uma luz brilhante fez com que Mike crispasse o rosto e fechasse os olhos. Fazia frio na sala e, instantaneamente, sentiu necessidade de um cobertor.
Mas ninguém lhe ofereceu um.
- Você esteve inconsciente durante um bom bocado, companheiro, - disse o vizinho, sentindo-se um pouco embaraçado por não saber nem o nome de Mike. - Eles cozeram-lhe a cabeça e puseram o maxilar no lugar. É melhor que não fale.
Mike olhou agradecido para o homem que estava curvado sobre ele. Apesar de estar ainda um pouco atordoado, analisou as feições do rosto do vizinho. Reconheceu-o como sendo o morador do apartamento ao lado do seu. O homem sentou-se junto da cama… e Mike que caiu num sono profundo.

* * *

Quando acordou, apercebeu-se que estava num local diferente. Estava tudo tranquilo e silencioso, deitado numa cama. Assim que abriu os olhos e tentou clarear a mente enevoada, compreendeu que continuava no hospital, mas, desta vez, num quarto particular. «Que quarto mais acolhedor», pensou. O seu olhar apático levou-o até os quadros na parede e à vistosa cadeira ao lado da cama. Havia um material de isolamento acústico no tecto, cruzando o quarto em pequenos e elegantes quadrados… que a sua visão distorcida transformava em losangos. As lâmpadas fluorescentes continuavam lá, mas desligadas e semi-escondidas pela decoração. A claridade vinha principalmente de uma janela com vista para a baía e um par de lâmpadas dentro
do quarto. Em vez do suporte do aparelho de TV que a maioria dos hospitais, costuma ter na parede em frente da cama, havia um armário com um fino acabamento. As lâmpadas tinham vários tons, como num hotel de luxo, que combinavam com o papel de parede!
Que espécie de lugar era este?... Uma residência particular?... Mas bastou examinar com mais cuidado, para reparar que, em vários pontos do quarto, havia canalizações de ar condicionado, gás e electricidade, habituais em todos os hospitais. Mike adivinhou que, atrás dele, tinha diversos equipamentos de diagnóstico – um deles estava preso ao seu braço com adesivo e emitia um sinal intermitente e periódico.

Aparentemente não havia ninguém por ali, e Mike começou a analisar o que tinha acontecido. Teria sido operado à garganta?... Conseguiria falar?.. Levou a mão bem devagar até a garganta, esperando encontrar ligaduras e até mesmo um aparelho de gesso. Em vez disto, encontrou uma pele macia! Apalpou em volta do pescoço, e verificou que tudo estava bem. Gradualmente, tentou aclarar a garganta, e logo se surpreendeu ao ouvir a sua própria voz. Foi só quando abriu a boca que descobriu qual era o problema. Uma dor violentíssima, capaz de causar náuseas, ferrou-se na boca e na base dos ouvidos. «Já sei onde me doeu,” pensou Mike enquanto guardava o propósito de não abrir novamente a boca tão depressa.
- Ah! Vejo que já acordámos!... Posso dar-lhe algo para lhe tirar essa dor, Sr. Thomas, - disse uma voz feminina, lamurienta mas gentil, vinda da porta do quarto. - Mas irá recuperar mais depressa se conseguir aguentar sem os analgésicos. Não tem nenhum osso partido; só precisa de exercitar a mandíbula.
A enfermeira, usando um uniforme padronizado, aproximou-se da cama. Para além desse uniforme, bem passado e perfeito, notava-se que tinha muita experiência. Acima do bolso, várias medalhas e distintivos demonstravam a sua capacidade.
Mike falou com a boca entreaberta para que não lhe doesse, movendo apenas a mandíbula para pronunciar as palavras:
- Onde estou eu?
- Está num hospital privado de Beverly Hills, senhor Thomas. - disse a enfermeira, aproximando-se da cama. - Passou aqui a noite, depois de o terem trazido dos Cuidados Intensivos das Urgências. Mas em breve terá alta.
Mike abriu os olhos surpreendido, e o seu rosto assumiu uma expressão de grande preocupação. Sabia de casos em que pagavam de 2 a 3 mil dólares diários por estar internado num sítio assim. O seu coração palpitou aceleradamente ao pensar como ira pagara a factura.
- Não se preocupe, senhor Thomas – disse a enfermeira tranquilizando-o, ao ver a expressão de Mike -.
Tudo está solucionado. O seu pai tratou de tudo e já pagou a factura.
Mike permaneceu em silêncio por um momento, a pensar como é que o seu pai, já falecido, pudera fazer algo assim. Talvez ela tivesse deduzido que era o seu pai, mas era o seu vizinho. Mike recuperou força para dizer o seguinte:
- Você viu-o?
- Claro que o vi! É muito simpático, o seu pai. Alto e louro como você, e com uma voz de santo. Sabe?
Teve muito êxito entre as enfermeiras.
Enquanto ouvia a enfermeira, reparou que ela tinha um sotaque de Minnesota, onde ele nascera. Naquela zona fala-se um pouco arrevesado, pondo o sujeito no final da frase: uma forma estranha de falar que ele tinha tido que corrigir quando chegara à Califórnia. A forma de falar de Minnesota fazia lembrar Yoda(1), uma das personagens da Guerra das Estrelas.
- Pagou em dinheiro – continuou a enfermeira - Não se preocupe, Sr. Thomas. Ele até deixou uma mensagem para si.
Mike sentou o coração aos pulos, embora continuasse a suspeitar que o «seu pai» era o vizinho. Porém, a descrição da enfermeira não quadrava com nenhum dos dois. Ela saiu do quarto para ir buscar a mensagem.
Menos de cinco minutos depois regressou com um pedaço de papel que, evidentemente, tinha uma mensagem escrita à máquina.
- Ele ditou a mensagem - explicou a enfermeira, enquanto tirava a folha de papel de dentro de um sobrescrito, timbrado com o logótipo do hospital -. Disse que não tinha boa letra, por isso o escrevemos à máquina.
Mesmo assim é difícil de entender. O seu pai tratava-o por Pepe quando você era pequeno?
A enfermeira entregou a folha a Mike. Leu o seguinte:
Querido Michael – PePe:
Nem tudo é o que parece. A tua busca começa agora. Cura-te rapidamente e prepara as tuas coisas para a viagem. Preparei a tua rota para Casa. Aceita este presente e segue em frente. O caminho ser-te-á mostrado.
Mike sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha. Olhou para enfermeira com gratidão e, colando o papel contra peito, fechou os olhos dando a entender que queria ficar sozinho. A enfermeira captou a mensagem e abandonou o quarto.

A mente de Mike processou várias possibilidades. A nota dizia: Nem tudo é o que parece. Mas esta era uma explicação insuficiente! Sabia perfeitamente que, na noite anterior, uma facínora tinha pontapeado e ferido a sua garganta, e tinha-o deixado meio morto no chão do apartamento. Sentira, segundo a segundo, como todos os ossos tinham chiado durante aquele horrível incidente. No entanto, nada sofrera excepto a mandíbula deslocada, que logo fora colocada novamente no lugar, alguns arranhões e uma ou outra nódoa negra na cara e na cabeça, que doeriam durante algum tempo mas que, de forma nenhuma, o deixariam incapacitado.
Era esse o «presente» que tinha recebido?
A ideia de que a visão do anjo tinha sido um acontecimento verídico não passou a fazer parte da realidade de Mike até ler aquela mensagem. Se não era do anjo… de quem era, então? Realmente, não conhecia ninguém com bastante dinheiro ou que fosse suficientemente conhecido para lhe dar fosse o que fosse… muito menos para pagar a sua considerável conta de hospital. Que outra pessoa, para além do anjo, sabia da viagem que ele prometera fazer?... O seu corpo vibrava com tanta pergunta e ele continuava com dúvidas acerca da mensagem e do seu significado, quando, finalmente, recebeu a confirmação do que necessitava. Então sorriu: a enfermeira perguntara se lhe chamavam Pepe. Na nota estava escrito claramente PePe, como se fosse um nome (indubitavelmente, era o anjo quem o ditara, letra por letra, e também tinha pago a factura).
Mas não se tratava de um diminutivo ou de uma alcunha; aquelas letras eram iniciais de: Pe-Pe – «Propósito Puro». Portanto, a saudação significava: Querido Michael, de propósito Puro!
O sorriso de Mike transformou-se em riso; estava dorido mas continuava a rir, e todo o seu corpo estremeceu com a alegria do momento, até que, por fim, se calou e derramou lágrimas de felicidade.
Iria para Casa!
Os dias seguintes foram especiais. Mike recebeu alta e saiu do hospital, levando consigo uns quantos analgésicos que o ajudariam a aliviar a dor. Mas descobriu que não precisava deles. O seu maxilar parecia recuperar a uma velocidade incrível, o que lhe permitia exercitá-lo com cuidado. Podia falar bem e, ao fim de dois dias, já conseguia comer com normalidade. No início custou-lhe um pouco, mas ao longo do processo apenas sentiu alguma dores. O maxilar estava um pouco rígido mas era suportável, dadas as circunstâncias. Mike recusou- se a tomar os analgésicos para evitar perder a euforia que sentia ao pensar que iria realizar a sua busca
espiritual. Em pouco tempo os cortes e as nódoas negras foram desaparecendo progressivamente, ainda que se tenha admirado com a rapidez com que tal ocorreu.
Renunciou ao seu emprego pelo telefone. Tinha imaginado muitas vezes como o faria e, de facto, saboreou o momento de dar por finalizado o seu vínculo com trabalho horrível. Depois telefonou ao seu amigo John explicando-lhe, o melhor que pôde, que ia tirar umas longas férias e que possivelmente não regressaria ao escritório. John desejou-lhe muita sorte, mas expressou a preocupação pelas reservas de Mike acerca do que tencionava fazer.
- Vamos, pá, a mim podes dizer – disse John em tom persuasivo. - Não direi a ninguém, nem farei nada…
O que é que se está a passar?
Mike sabia muito bem que John não entenderia a explicação que lhe aparecera um anjo e lhe tinha dado instruções. Assim, manteve as suas reservas.
- Tenho de fazer uma viagem muito pessoal – disse a John. - Significa muito para mim. - E não deu mais explicações.
Mike arrumou as suas coisas e despediu-se do apartamento. Separou cuidadosamente os seus pertences mais pessoais, da roupa e dos electrodomésticos. Não tinha grande coisa, mas guardou em duas maletas o que mais gostava: as fotos e alguns livros. Como tinha consciência de que não podia levar muita roupa, seleccionou apenas a que precisaria se fosse fazer uma breve viagem, e guardou-a junto das fotos e dos livros.
Mike chamou o vizinho que lhe tinha salvo a vida e ofereceu-lhe roupa, o televisor, a bicicleta que usava para ir trabalhar e grande parte dos escassos pertences que acumulara durante o ano anterior. Disse-lhe:
- Se não quiser, ofereça a uma instituição de beneficência.
O vizinho ficou comovido pelo gesto e apertou efusivamente a mão de Mike, mostrando um aberto sorriso.
Mike teve a sensação de que aquele homem precisava de muitas daquelas coisa que lhe dera. Já que, depois de ter chamado a ambulância, o vizinho também tinha salvo o Gato, o peixe, era natural que também ficasse com ele. Afinal, já estava no seu aquário.
- Adeus, Gato, porta-te bem! – disse Mike com um sorriso, ao despedir-se dele no apartamento do vizinho.
Gato nem se dignou a olhar para ele porque estava entretido com os seus novos amigos do aquário.
Ao quinto dia depois de ter saído do hospital, Mike apercebeu-se que estava a chegar ao fim dos preparativos. Não sabia exactamente o que fazer nem onde ir. Era de noite e tudo estava silencioso. Tinha a certeza de que o anjo sabia que ele estava pronto para partir e que o dia seguinte seria o início de algo novo. Sentia que a sua viagem era algo absolutamente real; estava convencido de que saberia o que fazer. Tudo quanto tinha acontecido naquela semana justificava a sua fé.
Então, decidiu rever o que tinha guardado nas malas para a sua viagem espiritual.
Abriu-as e examinou o que julgava necessário levar consigo. Antes do mais, as fotos. O álbum estava a desfazer-se devido ao passar do tempo, e muitas das velhas fotos estavam seguras às folhas por aqueles antigos cantos autocolantes, que se usam nos anos 50. Abriu o álbum com cuidado para não os descolar e, uma vez mais, sentiu a familiar melancolia ao deparar-se com a fotografia do casamento dos seus pais, a primeira do álbum.
Tinha-a encontrado depois do acidente, junto de outras fotos deles. Nesta, os pais sorriam para a câmara, sendo evidente que estavam muito apaixonados; começavam ali a sua vida em comum. Mike achava graça à roupa que usavam, e, se bem se lembrava, aquela era a única vez que vira o seu pai de gravata. Mais tarde, Mike encontrou o velho vestido de noiva da sua mãe numa arca, e teve de pedir a um vizinho que o embrulhasse e guardasse, pois, para ele, era muito doloroso. Quando tiraram aquela foto, Mike era apenas um brilho de entusiasmo no seu olhar, pois encaravam o futuro com muita esperança de coisas boas da vida. Contemplou a foto durante algum tempo e, finalmente, disse serenamente:
- Papá, mamã. Sou o vosso único filho. Espero que o que vou fazer não vos decepcione. Gosto muito dos dois e desejo vê-los em breve.
Passaram uns minutos preciosos, durante os quais, Mike folheou as páginas do álbum que continha a história da sua infância. Isto arrancou-lhe mais do que um sorriso. Ali estavam a velha quinta e as fotos dos seus diversos amigos. Adorava a foto no tractor, quando tinha seis anos. Aquele álbum era um tesouro! Sentiu que Deus estava contente porque ele respeitava os seus pais e a sua educação, ao decidir levar aquelas fotos na sua viagem especial. Não sabia o que acabaria por fazer ao álbum mas, naquele momento, sentia que não podia deixá-lo para trás.
Depois, estavam os livros. Ah! Como os adorava! A sua Bíblia, gasta de tanto lê-la, tinha-o reconfortado em muitíssimas ocasiões. Embora não entendesse todo o conteúdo, sentia a sua energia espiritual. Tinha-a guardado cuidadosamente e era algo a que nunca renunciaria.
Depois, vinham os livros que lera durante a infância, a que atribuía grande significado. Eram apenas uns livritos de bolso, que relia periodicamente. Cada vez que os relia, recordava-se do que fizera naquela idade em que descobrira, pela primeira vez, essas maravilhosas histórias e personagens.
Finalmente, estava a grande aventura de Moby Dick, que leu quando já era mais velho, assim como a colecção de Sherlock Holmes, e os seus poemas favoritos, escritos por autores quase desconhecidos.Tanto os livros quanto as fotos estavam cuidadosamente metidos em duas maletas para poderem ser transportados mais facilmente. Isto permitia-lhe levar também uma bolsa de tamanho médio, capaz de guardar um par de sanduíches, num momento de penúria.
Mike sentiu que estava preparado, e sentou-se no chão do apartamento, agora vazio. Tinha uma almofada, o que lhe bastava para dormir. Estava preparado para defrontar-se com o dia seguinte. A ansiedade gerada pela ideia de ir iniciar a sua busca espiritual quase o impediu de dormir, pois a sua mente estava repleta das imagens do tudo o que tinha acontecido até ao momento… e outras coisas esperavam por emergir da memória!
Era provável que, no dia seguinte, começasse a sua viagem para Casa.

(1) - O bichinho pequenino e de orelhas grandes, instrutor de Luke, o herói da epopeia.

sábado, 28 de maio de 2011

A História de Michael Thomas e os Sete Anjos II

CAPÍTULO II

A Visão


Mike acordou num lugar desconhecido. Então, com um clarão na memória, lembrou-se de tudo. Vagandoao acaso, os seus olhos, descobriram que não estava no seu apartamento, nem sequer num hospital da cidade.
Tudo estava calmo. De facto, o silêncio era tão constrangedor que começava a ficar nervoso. Não ouvia nenhum outro som excepto o da sua própria respiração! Nenhum carro passava na rua, nenhum barulhode ar condicionado – nada, nada! Mike soergueu-se e conseguiu recostar-se na cama.
Olhou para baixo, e reparou que estava deitado numa estranha cama, pequena como uma marquesa. Não tinha pijama, e vestia exactamente a mesma roupa do dia em que fora atacado. Levantou a mão e tocou no pescoço. O seu último pensamento, enquanto ainda estava consciente, fora de que estava partido, mas, para seu alívio, não detectou nenhum sinal de fractura. Mike, na verdade, sentia-se muito bem! Apalpou-se em diversos lugares, e o mais estranho é que não tinha nenhum ferimento ou inchaço no corpo. Mas… aquele silêncio!
Estava a ficar louco por não ouvir qualquer estímulo para os seus ouvidos. A luz era estranha, também.
Parecia vir de lugar nenhum e de todos, ao mesmo tempo. Era de um branco brilhante – um branco
tão vazio de cores que feria os olhos. Então, decidiu examinar melhor o lugar onde estava.
Era assombroso. Não estava num quarto – e não estava ao ar livre! Só havia ele, a cama e o chão branco, que se estendia até onde podia ver. Deitou-se novamente. Sabia o que acontecera: estava morto. Não era preciso ser um cientista para reconhecer que o que estava a ver a e sentir não correspondia ao mundo verdadeiro.
Mas… por que ainda conservava o corpo?... Mike decidiu tentar algo absurdo. Beliscou-se para ver se sentia dor, e contraiu-se proferindo um forte Ai!
- Como te sentes, Mike? - perguntou uma calma voz masculina.
Mike imediatamente olhou na direcção da voz e viu uma figura da qual não se esqueceria para o resto da sua vida. Sentiu uma presença angélica, uma sensação de grande amor.
Mike sempre se perguntava primeiro o que SENTIA, e só depois o que VIA. Realmente, tinha o hábito de
descrever as suas experiências desta maneira quando era questionado, e, naquele momento, viu uma figura de branco, ameaçadora e esplendorosa ao mesmo tempo. Perguntou: «São asas, isso que estou a ver? Que banal!»… E sorriu para visão que tinha à sua frente, achando difícil de acreditar que era real.
- Estou morto? - perguntou estoicamente, mas com respeito, ao ser que estava na sua frente.
- De modo algum. - disse a figura, aproximando-se. «Isto é apenas um sonho, Michael Thomas.» A aparição aproximou-se ainda mais, aparentemente sem andar. Mike viu uma face velada, desfocada do «homem» em frente à sua cama, mas, de alguma forma, sentiu-se a salvo, seguro e protegido. Tudo o que podia fazer era continuar a conversa. Era uma sensação óptima!
A figura estava vestida de branco, mas não se podia dizer que usava roupa. A vestimenta parecia estar viva e movia-se com a figura, como se fosse a sua pele. A face era indefinida. Mike não conseguia ver nenhuma prega, botão ou vinco, onde a roupa acabava e a pele começava, apesar dessa estranha vestimenta não ser apertada. Parecia uma renda flutuando e, por vezes, parecia brilhar de forma vaga e indistinta. Além disso, aos olhos de Mike, essa veste branca parecia misturar-se com a incrível brancura que o cercava. Era difícil ver onde acabava a figura angélica e começava o cenário dos acontecimentos.
- Onde estou eu?... Parece uma coisa idiota, mas acho que tenho o direito de fazer esta pergunta, - disse
Mike em voz baixa.
- Estas num local sagrado. Um local que tu mesmo construíste, e está repleto de amor. É exactamente isso
que estás a sentir agora. - A angélica figura inclinou-se para Mike e pareceu emitir ainda mais luz.
- E tu, quem és...? - perguntou Mike respeitosamente, apenas com um fio de voz.
- Provavelmente adivinhaste. Eu sou um anjo.
Mike nem pestanejou. Sabia que aquela visão estava a dizer a verdade. A situação, apesar de estranha, era extremamente real. Mike percebeu tudo claramente.
- Os anjos são do sexo masculino?
Mike arrependeu-se imediatamente de ter feito a pergunta assim que a formulou. Que parvoíces lhe dava para perguntar! Era, obviamente, um dia muito especial. Se era um sonho, era tão real como jamais experimentara.
- Eu sou apenas o que tu desejas ver, Michael Thomas. Não sou uma forma humana. O que estás ver é apresentado desta forma para que te sintas confortável. Mas, não – os anjos não são do sexo masculino. Na verdade não temos sexo. E também não temos asas.
Mike sorriu novamente, pensando que o que estava a ver talvez fosse um produto da sua imaginação.
- Que aspecto tens realmente? - perguntou Mike, que começava a sentir-se com mais liberdade para conversar normalmente com esta criatura amorosa. - E porque é que o teu rosto está velado? - Esta era uma pergunta válida, dentro das circunstâncias.
- A minha forma iria surpreender-te. Além disso, sentirias uma estranha lembrança ao vê-la, pois também é a forma com que te pareces, quando não estás na Terra. Esta forma está além de qualquer descrição. Portanto, continuarei assim, por agora. Quanto ao meu rosto, vê-lo-ás em breve.
- Quando não estou na Terra?
- A experiência na Terra é temporária, mas tu já sabes isso, não? Eu sei quem tu és, Michael Thomas. És um ser espiritual que compreende a natureza eterna dos Seres Humanos. Já agradeceste uma infinidade de vezes por possuíres uma natureza espiritual, e aqueles que estão ao meu lado ouviram cada uma das tuas palavras.
Mike ficou em silêncio. Sim, ele tinha rezado nas igrejas e em casa, mas pensar que fora ouvido claramente era difícil de acreditar. Esta entidade no seu sonho conhecia-o?
- De onde vens? - perguntou.
- De Casa.
A entidade amorosa, agora, parecia estar a brilhar directamente em frente da pequena cama de Mike. A figura inclinou a cabeça de lado – e esperou pacientemente enquanto Mike assimilava tudo aquilo. Mike sentiu um arrepio subir e descer pela coluna vertebral. Um forte sentimento dizia-lhe que estava perante uma grande verdade e que um jorro de conhecimento lhe seria dado, se o pedisse.
- Tens razão! - respondeu o anjo aos pensamentos de Mike. - O que fizeres agora irá mudar o teu futuro.
Sabes que é assim, não é verdade?
- Consegues ler meus pensamentos? - perguntou Mike timidamente.
- Não. Podemos senti-los. O teu coração está ligado a todos, como sabes, e nós respondemos quando tu precisas de nós.
A situação estava a ficar cada vez mais misteriosa.
- Falas no plural. Mas eu só te vejo a ti.
O anjo riu-se abertamente… e o som era espectacular. Que energia tinha aquele riso! Mike sentiu cada célula do seu corpo ressoar com o humor que o anjo expressava. Tudo que o anjo fazia era novo, maior do que a vida e, de alguma forma, trazia uma lembrança que estava fundo no subconsciente de Michael. Estava atordoado com aquela vibração, mas nada disse.
- Eu falo contigo com a voz de um, mas represento as vozes de muitos. - declarou o anjo, enquanto levantava os braços, deixando a sua estranha veste flutuar e ondular com o movimento. - Há muitos ao serviço de cada Ser Humano, Michael. Isto tornar-se-á óbvio para ti, caso faças essa escolha.
- É claro que faço essa escolha! – gritou Mike. Como poderia um convite como aquele ser ignorado?...
Mas logo se sentiu embaraçado, como se estivesse a agir como uma criança perante um artista de cinema.
Ficou em silêncio durante algum tempo e viu o anjo mover-se para cima e para baixo, como se estivesse em cima de um elevador hidráulico. Reflectiu novamente sobre se tudo aquilo poderia ser o resultado do seu desejo de perceber as coisas, por ter assistido a filmes, ido à igreja, ou contemplado grandes obras de arte.
Estava tudo em silêncio novamente – e que silêncio! O anjo, obviamente, não iria partilhar informações a menos que Mike começasse a fazer perguntas:
- Posso saber qual é a minha situação?... Isto é realmente um sonho?... Parece tão real.
O anjo aproximou-se e disse:
- O que é um sonho, Michael Thomas?... Um sonho é uma visita à tua mente biológica e espiritual, que te permite receber informações sobre o meu lado do véu – algumas vezes metaforicamente. Sabias disto?... Um sonho pode não ser igual à tua realidade, mas, na verdade… está mais perto da realidade de Deus, do que qualquer outra experiência que tenhas regularmente! Como te sentiste sempre que o teu pai e a tua mãe participaram nos teus sonhos?... Não parecia real?... Parecia… e era! Lembras-te da semana após o acidente,
quando eles te visitaram?... Tu, como resposta, choraste durante semanas. Era a realidade deles. As suas mensagens para ti eram reais. Eles continuam a partilhar amor contigo, Michael, porque, tal como tu, são eternos. Quanto às perguntas sobre a tua situação, por que pensas que estás a ter este sonho?... Este é o único propósito desta visita. É algo lícito, que ocorre no tempo certo.
Mike estava contente com a longa conversa com este maravilhoso ser, que lhe parecia cada vez mais familiar.
- Será que me sairei bem desta situação?... Acho que estou seriamente ferido e inconsciente. Talvez até esteja a morrer.
- Depende. - disse o anjo.
- Depende de quê?
- O que é que realmente queres, Michael? - perguntou o anjo amorosamente. - Diz-nos o que realmente desejas. Mas tem cuidado com o que vais dizer, pois a energia de Deus, geralmente, é literal. Além disso, nós sabemos o que tu sabes. Não podes enganar a tua própria natureza.
Michael desejava ser honesto na sua resposta. A situação cada vez era mais real. Lembrava-se realmente dos sonhos nítidos que tivera com os pais, logo após o acidente. Eles apareceram juntos, nas poucas vezes em que conseguira dormir naquela semana terrível, e tinham-no abraçado e amado. Disseram-lhe que era o tempo certo para partirem – qualquer que fosse o significado. Mike, de facto, não tinha aceite o que acontecera.
E disseram que os eventos que culminaram com as suas mortes tinham acontecido para que Michael recebesse um presente. Ele sempre se perguntara que tipo de presente seria… mas aquilo era apenas um sonho, ou não?... O anjo dissera que era real. A experiência parecia-lhe tão verdadeira que talvez as mensagens dos pais também o fossem… assim como o anjo. «Como é confuso», pensou com frustração! «O que desejo eu?» perguntou a si mesmo. Considerou a sua vida e todas as coisas que tinham acontecido no ano que passara. Sabia o que queria… mas achou que não seria correcto pedir.
- Michael, ocultar os desejos mais íntimos não confirma a tua magnificência - disse-lhe o anjo em tom de brincadeira.
- Que chatice! - Mike disse para si mesmo. - O anjo apercebeu-se novamente do que estou a pensar. Não há nada que eu possa esconder. - Então, indagou:
- Se já sabes o que quero, por que vieste perguntar-me?... E que história é essa de eu ser magnífico?
Pela primeira vez, o anjo mostrou algo diferente de um sorriso. Era um sentimento de honra e respeito!
- Tu não tens ideia do que e de quem és realmente, Michael Thomas, - disse o anjo com seriedade. E acrescentou: - Achas-me maravilhoso?... Pois deverias ver como tu és!... Algum dia verás. Quanto ao facto de saber os teus pensamentos e sentimentos, é claro que sei. Sou uma parte do apoio que recebes e, portanto, estou contigo de muitas maneiras. É uma honra para mim aparecer para ti, mas, desta vez, é a tua intenção que vai trazer as mudanças. Tens agora a oportunidade de me dizer, ou não, qual é o teu maior desejo como Ser Humano neste momento. A resposta deve vir do teu próprio coração e ser dita em voz alta, para que todos possam ouvir – até tu! O que fizeres a este respeito, representará uma enorme diferença para muitos outros seres.
Mike deixou aquelas palavras penetrarem dentro dele. Teria de dizer a sua verdade, mesmo que não fosse exactamente o que o anjo queria ouvir. Pensou por um momento, e disse:
- Eu quero ir para Casa! Estou cansado desta vida como Ser Humano!
Pronto! Dissera tudo. Queria ir-se embora, e acrescentou emocionado:
- Mas não quero evitar algo que seja importante no plano de Deus… A vida parece não ter sentido, mas aprendi que fui feito à imagem de Deus, com um propósito… portanto, o que posso fazer?
O anjo moveu-se para o lado da cama, para que Mike pudesse vê-lo melhor. Era espantosa, essa visão, esse sonho ou o que quer que fosse. Iria jurar que sentia o perfume de violetas – ou seriam lilases?.. Mas, porquê flores? O anjo naturalmente tinha um perfume! E era mais maravilhoso ainda quando se aproximava.
Michael sabia de que o anjo estava contente com o diálogo. Podia sentir isso, mesmo que não conseguisse visualizar nenhuma expressão no rosto angelical.
- Diz-me, Michael Thomas: É pura a tua intenção?... Queres realmente o que Deus quer?.... Desejas ir para Casa, mas também estás ciente de um plano maior – não queres desapontar-nos ou actuar de uma forma espiritualmente errada?
- Sim, - disse Mike. - É isso mesmo. Quero livrar-me dessa situação, mas receio que o meu desejo seja uma contradição… ou seja egoísta.
- E se eu te disser que podes conseguir ambas as coisas? - perguntou o anjo com um sorriso. - E se eu te
disser que o teu desejo de ir para Casa não é egoísta, mas natural, e não está em conflito com o desejo de honrares o teu propósito enquanto Ser Humano.
- Por favor, diz-me como posso fazer isto, - pediu Mike, excitado.
O anjo tinha visto o coração de Mike e agora honrava-o espiritualmente pela primeira vez.
- Michael Thomas de Intenção Pura, a fim de determinar se é isto que queres, devo fazer mais uma pergunta antes de continuar a falar sobre o assunto. - O anjo moveu-se ligeiramente para trás e concluiu:
- O que esperas ganhar indo para Casa?
Mike meditou fundo sobre isto. O seu silêncio teria sido incómodo durante uma conversa normal entre pessoas, mas o anjo entendeu perfeitamente, sabendo que esta era uma hora sagrada para a alma de Michael Thomas. Pela medida do tempo na Terra, Michael ficou parado durante dez minutos ou mais, mas o anjo não se moveu nem disse nada. Não teve nenhuma demonstração de impaciência ou cansaço. Mike começava a
perceber que essa entidade não tinha realmente a percepção do tempo, e que a impaciência dos
Seres Humanos se devia à sua realidade do tempo linear.
- Eu quero ser amado e estar perto do amor, - foi a resposta de Mike. - Quero sentir-me pacífico durante a minha existência. - E depois de uma pausa: Não quero estar sujeito às preocupações e interacções triviais daqueles que me cercam. Não quero preocupar-me com dinheiro. Quero sentir-me solto! Estou cansado de estar sozinho. Quero sentir-me importante para outras entidades no Universo. Quero saber que existo com algum propósito, e que a minha parte no céu – ou qualquer que seja o nome – possa ser correcta e apropriada ao plano de Deus. Não quero continuar a ser um Ser Humano como tenho sido.
Quero ser como tu! -
Fez outra pausa e acrescentou.
- É isto que «ir para Casa» significa para mim.
O anjo deslocou-se outra vez para os pés da cama e comentou:
- Então, Michael Thomas de Intenção Pura, irás ter aquilo por que tanto te empenhaste!
O anjo parecia estar ainda mais brilhante, como se isso fosse possível! Exibia uma incandescente luz branca, que, agora, começava a misturar-se com uma cor dourada.
- Mas deves seguir o caminho que está previsto e deves fazê-lo voluntariamente, com intenção e por escolha própria. Então serás recompensado com a viagem para Casa. Farás isso?
- Sim, farei, - respondeu Mike. E percebeu o início de um sentimento incrível, que somente poderia ser descrito como um banho de amor. O ar começou a ficar denso. O brilho do anjo começou a rodear a cama e os pés de Mike. Arrepios começaram a subir-lhe pela sua espinha e, involuntariamente, começou a tremer com uma vibração rápida, como nunca sentira antes. Era tão rápido que parecia um zumbido. Subiu pelo corpo até a cabeça. A sua visão começou a mudar, com flashes momentâneos de azul e violeta, fazendo grande contraste com o branco intenso que estivera a ver desde que tudo começara.
- O que está a acontecer? - perguntou Mike amedrontado.
- A intenção que manifestaste está a mudar a tua realidade.
- Não entendo - disse Mike aterrorizado.
- Eu sei, respondeu o anjo num tom compassivo. - Não tenhas medo da integração de Deus no teu ser. É uma fusão que requisitaste e que é lícita para a tua Jornada para Casa.
O anjo afastou-se da estreita cama de Mike, como se quisesse dar-lhe mais espaço.
- Não te vás embora, por favor! - exclamou um Mike, ainda assustado e amedrontado.
- Calma. Estou apenas a ajustar-me ao teu novo tamanho, - disse o anjo, divertido. - Partirei apenas quando tivermos acabado.
- Continuo sem compreender, mas não estou com medo, - mentiu Mike.
Novamente o anjo se riu e encheu o espaço com uma ressonância que surpreendeu Mike com a sua alegria e intensidade de amor. Mike viu que ali não havia espaço para segredos, pelo que continuou a falar. Tinha de saber que sensação era aquela. E o anjo voltou a rir-se.
- O que acontece quando ris? Se alguma forma, isso afecta-me internamente. É algo que nunca senti antes.
O anjo, encantado com a pergunta, respondeu:
- O que tu ouves e sentes é um atributo que é puramente da fonte de Deus, - disse o anjo. O humor é uma das únicas qualidades que passam imutáveis do nosso lado para o teu. Já pensaste que os Seres Humanos são as únicas entidades biológicas da Terra que podem rir? Podes acreditar que os animais riem, mas estão apenas a responder a estímulos. Vocês são os únicos seres que têm a chispa real da sabedoria espiritual que dá suporte a esta propriedade; os únicos seres que podem criar humor a partir de um pensamento abstracto ou de uma ideia. Portanto, a tua consciência é a chave. Acredita-me, o humor é sagrado, e é por este motivo que cura, Michael Thomas de Intenção Pura.
Esta era a explicação mais longa que o anjo já lhe dera até ao momento. Mike sentiu que poderia conseguir extrair mais algumas jóias de verdade, antes que aquele momento passasse. E tentou avidamente.
- Como te chamas?
- Eu não tenho nome.
E o silêncio regressou numa longa pausa. - Ops! - pensou Mike, voltamos às respostas curtas.
- Como és conhecido? - continuou a investigar.
- Eu SOU conhecido por todos, Michael Thomas – e porque SOU conhecido por todos, logo existo.
- Não entendo - respondeu Mike.
- Eu sei - disse o anjo sorrindo. Mas este riso era uma homenagem à inocência de Michael, numa situação onde não se esperava que pudesse saber mais sobre o assunto – tal como um pai consentiria que o filho lhe fizesse perguntas perspicazes sobre a vida. Havia amor em tudo que o anjo dizia ou fazia. Mike sabia que tinha de parar de pressionar e ir directamente ao centro da questão.
- De que caminho estás tu a falar, querido anjo? - Mike sentiu-se desconfortável por ter utilizado a palavra «querido», mas, de alguma forma, tal expressão cabia à personalidade que estava à sua frente. O anjo era paternal, fraterno e amigo, e, simultaneamente, ainda transmitia a sensação de ser um amante. Este era um sentimento que Mike não esqueceria tão cedo. Queria permanecer nesta energia, e temia o pensamento de que ela poderia chegar a um fim.
- Quando voltares para a tua realidade, Michael, prepara-te para empreender uma aventura de vários dias.
Quando estiveres pronto, o início do caminho ser-te-á mostrado. Serás convidado a viajar para as sete Casas
do Espírito, e em cada uma delas encontrarás uma entidade parecida comigo, cada uma com um propósito diferente. O caminho poderá ter surpresas e até perigo, mas poderás parar sempre que quiseres, e não haverá nenhum julgamento sobre isso. Vais transformar-te durante o caminho e aprenderás muitas coisas. Serás convidado a estudar os atributos de Deus. Se visitares todas as sete lugares, então a porta para o Casa ser-te-á mostrada. E, Michael Thomas de Intenção Pura - o anjo fez uma pausa e sorriu - haverá uma grande celebração quando abrires essa porta.
Mike não sabia o que dizer. Sentiu uma espécie de alívio, mas também um nervosismo sobre a viagem para o desconhecido. O que iria encontrar? Deveria percorrer o caminho? Talvez isto fosse apenas um sonho sem pés nem cabeça. O que era verdade, em tudo isto?
- O que tens à tua frente agora é real, Michael Thomas de Intenção Pura, - disse o anjo que novamente tinha lido as emoções de Mike. - Retornarás para uma realidade temporária, construída apenas para os Humanos fazerem a sua aprendizagem.
Bastava que Michael tivesse uma dúvida, e o anjo logo a esclarecia. Mais uma vez sentiu que, de alguma forma, estava a ser violentado por este novo meio de comunicação, embora, ao mesmo tempo, estivesse a ser dignificado! «Num sonho - pensou Mike - estás em contacto com a tua mente. Portando, não pode haver segredos de ti para ti mesmo.» Talvez por isso fosse correcto manter a conversa com esta entidade que sabia o que ele estava a pensar. Além disso, Mike estava a experimentar exactamente o que o anjo dissera.
Começava a sentir-se confortável nesta «realidade onírica», e não lhe apetecia nada voltar para nada menor do que isto.
- E agora? - perguntou Mike hesitantemente.
- Já manifestaste a tua intenção de percorrer o caminho. Então, agora, vais regressar para o teu estado de consciência humano. Entretanto, há que destacar alguns pontos: as coisas não serão sempre como parecem, Michael. À medida que fores progredindo, estarás mais perto da realidade que estás a experimentar agora comigo. Portanto, é provável que tenhas de desenvolver uma nova maneira de ser – talvez um pouco mais...
- O anjo fez uma pausa - mais no presente do que costumavas estar, enquanto te aproximas da porta da Casa.
Mike não entendeu o que o anjo estava a dizer mas, mesmo assim, ouviu atentamente.
O anjo continuou.
- Existe outra pergunta que devo fazer-te já, Michael Thomas de Intenção Pura.
- Estou pronto - respondeu Mike, sentindo-se pouco seguro de si, mas honestamente pronto para seguir em frente.
- Qual é a pergunta?
O anjo moveu-se para mais perto dos pés da cama e disse:
- Michael Thomas de Intenção Pura, amas Deus?
Mike estava perplexo com a pergunta. «É claro que amo», pensou. Porquê esta pergunta?... E respondeu:
Se podes ver o meu coração e conheces os meus sentimentos, deves saber que amo a Deus.
Fez-se um silêncio… e pareceu-lhe que o anjo estava satisfeito.
- Claro que sim!
Foi a última frase que Mike ouviu dos indistintos lábios desta maravilhosa criatura que, obviamente, o amava muito. O anjo chegou perto de Mike e moveu a sua mão de tal modo que atravessou a sua garganta.
Como conseguia ele fazer isto? Imediatamente sentiu como se centenas de pirilampos tivessem voado para o seu pescoço e estivessem a alterar a sua personalidade. Não sentiu qualquer dor, mas, subitamente, vomitou.

A História de Michael Thomas e os Sete Anjos I

CAPÍTULO I

1 - Michael Thomas
Pedaços de acrílico preto voaram em todas as direcções enquanto Mike empurrava, com força demais, a caixa de «entrada de papéis» contra a parede do cubículo que era o seu escritório de vendas. Este era outro exemplo de um objecto inanimado que estava a suportar o impacto da raiva crescente de Mike perante a situaçãoem que vivia. De repente, uma cabeça levantou-se acima da planta artificial, empoeirada, à sua esquerda.
- «Está tudo bem por aí? - perguntou John do cubículo anexo.
As paredes de cada cubículo eram altas apenas o suficiente para permitir que cada pessoa achasse que tinhao seu próprio escritório. Mike colocara diversos objectos altos na sua escrivaninha, para iludir o facto de os seus colegas de trabalho estarem, permanentemente, a apenas um metro e meio de distância – todos eles fingindo estar sozinhos no seu «espaço», e tendo conversas «particulares».
O brilho da luz fluorescente, vinda do tecto acima dos cubículos, banhava Mike e os colegas com aquele tipo de falsa iluminação encontrada apenas em empresas e indústrias. Parecia absorver o vermelho do espectro visual, tornando todos pálidos… apesar de viverem na ensolarada Califórnia. Ter passado anos sem apanhar sol fazia com que Mike parecesse ainda mais pálido. «Nada que uma viagem às Bahamas não cure», respondeu Mike sem olhar para a planta, através da qual a cabeça de John tentava aparecer. John encolheu os ombros e voltou à sua conversa ao telefone.
Mesmo que as palavras tenham escapado dos seus lábios, Mike sabia que nunca iria às Bahamas, ganhando o salário de um vendedor a trabalhar nas «minas de carvão», como os empregados chamavam à fábrica para a qual trabalhavam. Mike começou a recolher os pedaços da bandeja de acrílico que tinha estilhaçado e suspirou – uma coisa que estava a fazer muito, ultimamente. Estava ali com que objectivo? Por que não sentia energia ou incentivo para melhorar a sua vida? O seu olhar parou no ursinho de pelúcia que oferecera a si próprio, e que dizia: «Abraça-me.» Ao lado do ursinho estava uma tira da sua banda desenhada preferida que mostrava o «pássaro azul da felicidade»: Mas, bem pelo contrário, ele estava a ter que lidar com a «galinha da depressão!»
Não importando quantas caras sorridentes ou desenhos ele pregasse nas paredes do seu cubículo, Mike continuava a sentir-se bloqueado. Estava a levar uma existência parecida com o trabalho da máquina de fotocópias do escritório: todo dia duplicando tudo, sem nenhum propósito. A frustração e a impotência que sentia deixavam-no com raiva e deprimido, e os sinais começavam a aparecer. O seu supervisor já tinha reparado nisso.

Michael Thomas tinha trinta e poucos anos. Tal como várias outras pessoas no escritório, «fazia o que era preciso para sobreviver». Aquele era o único emprego que encontrara onde não tinha de se preocupar muito com o que fazia. Podia, simplesmente, desligar-se durante oito horas por dia, voltar para casa, dormir, tentar pagar as contas pendentes durante fim-de-semana, e regressar ao trabalho às segundas. Mike apercebeu-se que só sabia o nome de quatro pessoas entre as trinta que trabalhavam naquele escritório de Los Angeles.
Não se importava com isso, e assim ficou cerca de um ano - desde o momento em que ocorrera aquele problemaemocional que lhe ferira o coração para sempre. Nunca tinha compartilhado essas memórias com ninguém, mas elas invadiam a sua cabeça quase todas as noites.
Mike vivia sozinho, se exceptuarmos o seu solitário peixe. Sempre quis ter um gato, mas o senhorio não permitia. Sabia estar no papel da «vítima», mas, como a sua auto-estima estava sempre em baixa, continuava a «massajar a ferida» em que se tornara a sua vida – mantendo-a intencionalmente aberta e sangrandopara se poder amparar nela. Não tinha mais nada que pudesse fazer, e sabia que não dispunha da energiapara mudar as coisas, mesmo se quisesse. Deu o nome de Gato ao peixe só por brincadeira, e conversava com ele sempre que chegava em casa ou antes de sair para o trabalho.
- Mantém a fé, Gato. – dizia Mike para o seu amigo, quando saída.
É claro que o peixe nunca respondeu.
Com cerca de um metro e noventa de altura, Mike metia respeito. Por isso sorria. O seu sorriso largo tinha um charme que dissolvia todos os pré-julgamentos que alguém pudesse fazer, com base na sua estatura. Não foi por acaso que se viu a trabalhar pelo telefone, onde os clientes não pudessem vê-lo. Era uma forma de negar propositadamente o seu melhor atributo – quase uma prisão auto-imposta, permitindo que mergulhasse no melodrama da sua situação actual. Mike sobressaía devido às suas habilidades pessoais, mas raramente as usava, a não ser quando era necessário por questões de trabalho. Não cultivava amigos por opção e, no actual estado de ânimo, o sexo oposto nem existia para ele – apesar de que as mulheres decerto teriam gostado dele. Os seus colegas de trabalho diziam:
«Mike, quando foi a última vez que tiveste uma namorada? Precisas de sair e encontrar uma boa moça. Muda essa mentalidade!» Depois, todos eles voltavam para as suas casas, para as suas famílias, cachorros e filhos adoráveis – e um ou outro também teriaum peixe. Mas Mike não conseguia imaginar como poderia começar o processo de reconstruir a sua vida
amorosa perdida. Decidiu que não valia a pena. Dizia para si mesmo:
- Encontrei a minha metade muito cedo, só que ela não sabia disso.
Nessa altura, estava muito apaixonado, sentindo todas as expectativas que vêm com o amor. Ela, por outro lado, estava apenas a divertir-se. Quando, finalmente, isso se tornou óbvio, foi como se todo futuro de Mike tivesse murchado e desaparecido. Ele amara-a com uma paixão singular, que, segundo acreditava, sentiria apenas uma vez na vida. Gastara todo o seu amor com ela… e ela tinha-o rejeitado!
Criado pelos pais numa fazenda na pequena cidade de Blue Earth, no Minessota, Mike tinha escapado de uma situação que considerava sem saída: cultivar produtos que, ou eram comprados por países estrangeiros ou armazenados indefinidamente em silos enormes, devido à superprodução. Desde muito cedo descobriu que a vida de fazendeiro não era para ele. Nem mesmo o seu país parecia valorizar essa profissão. Que vantagem teria? Acresce que não podia aguentar o cheiro de tudo o que o rodeava. Queria trabalhar com pessoas em vez de com animais e tractores. Tinha sido um bom aluno, e era absolutamente o melhor em qualquer coisa que envolvesse interacção com outras pessoas. Acabar por trabalhar em vendas era uma coisa
natural para ele. Não teve, por isso, qualquer problema em encontrar um emprego como vendedor de uma série de produtos e serviços, que podia representar com honestidade. As pessoas adoravam comprar coisas a Michael Thomas.
Olhando para o passado, para o que os seus pais, agora mortos, tinham deixado, apercebeu-se de que uma coisa ficara arreigada nele: a sua crença em Deus. «Grande coisa, esse sentimento agora», pensava amargamente. Mike era filho único. Os pais – seus amados mãe e pai – tinham morrido num acidente de viação alguns dias antes do seu 21º aniversário. Continuava a chorar a sua perda e mantinha à vista as suas fotos para se lembrar de como tinham vivido… e de como tinham morrido. Apesar de tudo, continuava a ir à igreja e seguia o culto, ao menos por mera formalidade. Quando o padre o questionava acerca do seu estado espiritual, Mike admitia abertamente a fé e a crença na sua natureza espiritual. Estava certo de que Deus era
justo e amoroso, embora não estivesse muito perto Dele no momento – pelo menos nos últimos anos, para dizer a verdade. Mike rezava sempre por uma situação melhor, mas tinha pouca esperança de que as coisas realmente mudassem.
Mike não era propriamente bonito, mas era bastante atractivo, pois herdara a postura altiva do pai. As mulheres achavam-no irresistível. O seu sorriso cintilante, o cabelo louro, o porte esbelto, o queixo quadrado e os profundos olhos azuis eram cativantes. Quem tivesse intuição apercebia-se que Mike era um homem íntegro.
Por isso, confiavam nele imediatamente. Dispusera de diversas oportunidades para beneficiar indevidamente de várias situações – tanto nos negócios, quanto no romance – mas nunca se aproveitou disso. Mike era um produto da consciência firme dos fazendeiros – um dos únicos atributos valiosos que trouxe da sua infância, passada na sua fria cidade natal.
Era incapaz de mentir e entendia intuitivamente quando outros precisavam de ajuda. Abria as portas para as outras pessoas ao entrar e ao sair do supermercado, respeitava e conversava com os mais velhos, e sempre dava aos pedintes, fossem homens ou mulheres, a moeda que eles pediam, mesmo que suspeitasse que poderia ser gasta em bebidas.
Sentia que todos deveriam trabalhar em conjunto para melhorar as coisas. Nunca entendeu por que razão, na cidade que tinha adoptado, as pessoas não conversavam nem se encontravam com os vizinhos. Talvez não precisassem de ajuda por causa do excelente clima. «Que irónico», pensou.
O seu único modelo feminino de mulher era a mãe; portanto, tratava as mulheres com o tipo de respeito que tinha aprendido com aquela mulher, sensível e maravilhosa, de quem tanto sentia a falta. Parte da sua tristeza, agora, derivava do sentimento de ter sido traído no único relacionamento «real» que tivera. Mas, na verdade, a experiência de Mike fora apenas o resultado de um choque cultural: o que era esperado por uma pessoa não foi concedido, e vice-versa. A garota da Califórnia, que tinha destroçado o seu coração, estava apenas a seguir o que acreditava ser a sua verdade acerca do amor. Porém, Mike não via as coisas assim.
Recebera outro tipo de educação… e não tolerava opiniões diferentes sobre o amor.
* * *
E é assim que a nossa história realmente começa.
Ali estava Michael Thomas com a sua auto-estima em baixa, regressando a casa numa noite de sexta-feira, pronto para se recolher no seu apartamento, uma espécie de estúdio de duas assoalhadas (casa de banho incluída!). Parou na mercearia para comprar alguns suprimentos de que precisava para sobreviver nos próximos dias. Há muito tempo descobrira que podia fazer render o dinheiro se comprasse as marcas genéricas e usasse sabiamente os vales de compras. Mas, qual era a sua verdadeira chave para a frugalidade?... Não comer muito!
Comprava comida enlatada, que não precisava de ser cozinhada. Assim, prescindia do fogão ou evitava pagar muito pelo consumo de energia eléctrica. Esta prática deixava-o desnutrido, com fome, e sem sobremesa…o que servia muito bem ao seu propósito de se sentir como uma vítima. Além disso, descobriu que, se comesse todos os alimentos directamente da embalagem, junto do lava-loiça, não precisava de lavar qualquer prato… coisa que detestava. E gabava-se como tinha resolvido problema, junto de John, o seu colega de serviço e único amigo. Sabendo dos hábitos de Mike, John comentou, de brincadeira, que Mike não tardaria a encontrar uma forma de não fazer nada – viver até sem apartamento – indo morar no abrigo mais próximo. John riu-se ao dizer isto e deu uma palmada nas costas do amigo. Mike, no entanto… pensou seriamente
em considerar a questão. Quando saiu da mercearia e foi para casa, já estava escuro. Uma neblina espessa ameaçava chuva para todo dia, tornando tudo escorregadio e brilhante à luz artificial dos candeeiros da rua, reflectidos nos degraus da entrada do apartamento. Feliz por viver no sul da Califórnia, Mike sempre se lembrava dos Invernos rigorosos em Minnesota, onde crescera. Durante a juventude, sentira uma paixão pela Califórnia, e jurou a si mesmo que escaparia do castigo daquele clima que toda a gente, simplesmente, aceitava.
E perguntava à mãe:
- Como é possível alguém viver num lugar onde se pode morrer congelado em dez minutos?
A mãe, olhando para ele, limitava-se a sorrir e respondia:
- As famílias ficam onde têm as suas raízes, sabes? Além disso, este lugar é seguro.
Aquele era o sermão de sempre, acerca de como Los Angeles era uma cidade perigosa e de como Minnesota era agradável. Isto só fazia sentido se a pessoa não acrescentasse «morte por congelamento»!
Mike não conseguia convencê-la de que o perigo dos terramotos era como a lotaria: poderia ocorrer durante a sua vida, ou não. Os penosos Invernos em Minnesota, no entanto… todos os anos eram infalíveis – uma ocorrência cíclica que se podia esperar com toda a certeza!
É inútil dizer que Mike saiu da sua cidade natal assim que terminou os estudos secundários, mudando-se para a Califórnia para frequentar a faculdade. Usou as suas capacidades de vendedor para financiar pessoalmente tudo que fez. Agora, porém, desejava ter ficado mais tempo em casa – para estar com a sua mãe e o seu pai durante os anos que antecederam o acidente. Achava que, na sua necessidade de escapar ao frio, se privara do convívio com eles. Por isso se sentia egoísta e infeliz.
Na penumbra, Mike subiu os degraus da frente até ao andar do seu apartamento e procurou as chaves.
Balançou o saco da mercearia e colocou a chave na fechadura. A chave entrou normalmente… mas foi aí, na noite daquela sexta-feira que o «normal» acabou para Michael Thomas. Do outro lado da porta tinha um presente – potencialmente uma parte do destino de Mike – algo que iria mudar a sua vida para sempre.
Devido à moldura deformada da porta, Mike aprendera a usar o peso do corpo para ajudar a abrir a teimosa fechadura do quarto. O resultado era a porta ser aberta sempre à força. Mike tinha aperfeiçoado o método de segurar o saco da mercearia apoiado no quadril, deslizar a chave na fechadura, virando-a e empurrando com o pé ao mesmo tempo. Esta manobra exigia um certo balanço dos quadris e, embora desse resultado, John tinha comentado que era algo muito estranho de se ver!
A obstinada porta abriu com o impacto dos quadris de Mike, assustando ladrão que estava dentro do quarto às escuras. Com a rapidez de um gato e anos de experiência de lidar com o inesperado, o estranho, um palmo mais baixo do que Mike, atirou-se instantaneamente para frente, agarrou-lhe o braço e puxou-o para dentro da sala. Como a inusitada forma de abrir a porta já o desequilibrava naturalmente, foi fácil para o ladrão derrubá-lo, apesar da desvantagem física. As compras foram atiradas com tanta força contra a parede oposta que as tampas das embalagens abriram-se. Antes de alcançar o chão, Mike, surpreendido e com todos os sinais de alarme a soar no seu corpo, ouviu a porta a fechar-se atrás de si… ficando o ladrão do lado
de dentro! De relance, reparou que a sua cara iria direito a um pedaço de vidro partido, resultado da janela estilhaçada por onde entrara o pequeno homem.
Este é um daqueles momentos que ficam gravados na mente, como se o tempo parasse ou andasse lentamente.
Mas tal não foi o caso de Michael Thomas: os segundos voaram num tempo compacto, enevoado,
criando um grande pânico. O homem que arrombara o apartamento estava determinado em continuar a sua busca e remover o aparelho de TV e o estéreo, certamente não se importando com o que aconteceria com a sua vítima. Portanto, assim que Mike caiu no chão, o ladrão, com as mãos suadas, já estava em cima dele.
Parecia que um torno lhe apertava o pescoço. Os seus grandes olhos estavam somente a alguns centímetros dos de Mike… que podia sentir e cheirar o hálito quente e pesado do ladrão no seu rosto, e o peso dos quadris no seu estômago. Reagiu instintivamente, como qualquer outra pessoa que estivesse para morrer, e tentouum golpe que podemos ver em qualquer filme de segunda classe. Apesar da sua desorientação, atirou a cabeça para frente com toda a força contra a do ladrão. Funcionou. O assaltante, surpreso com a força do movimento, relaxou um pouco as mãos o que permitiu que Mike rolasse rapidamente para o lado e tentasse levantar-se. Antes de se equilibrar, no entanto, o ladrão atacou novamente. Desta vez aplicou um forte soco no estômago de Mike, que foi praticamente atirado para cima com o impacto, indo cair de costas sobre a sua esquerda e bater brutalmente contra algo grande, que vagamente lhe pareceu ser o aquário. Com um barulho terrível, o móvel, o aquário e o solitário peixe misturaram-se com as compras, no chão da pequena sala.
Mike sentia muitas dores e estava sem fôlego. Ainda arfava – tinha os pulmões em fogo pela falta de oxigénio– quando, com olhos esbugalhados, viu uma bota - que parecia maior que o estado de Montana - vir na sua direcção. O assaltante, agora, estava a sorrir.
Aconteceu muito depressa: a bota achou o alvo e Mike sentiu e ouviu os ossos da garganta e do pescoço fazerem um barulho horrível. Engasgou-se com horror, sabendo que a passagem de ar estava danificada, e até, talvez, a coluna vertebral. Todo o corpo reagia ao estalar e pulsar do pescoço mutilado. Entrou em choque ao sentir a realidade da situação. Era isso: a morte estava perto! Tentou gritar, mas a voz não saía. Mike não conseguia respirar, e a visão escureceu. Tudo ficou quieto. O ladrão apressava-se a concluir a sua noite de trabalho, não se preocupando com o homem imóvel no chão, quando foi novamente surpreendido por alguém que batia freneticamente na malvada porta do apartamento.
- O que está a acontecer aí?... Está tudo em ordem? - perguntava um vizinho.
O ladrão praguejou pela falta de sorte e dirigiu-se rapidamente em direcção à janela partida. Para desimpedir a saída retirou alguns cacos de vidro que ainda restavam e saltou para fora do prédio.
O vizinho de Mike, que, na verdade, nunca se encontrara com ele, ouviu o som de mais vidro a partir-se e decidiu virar a maçaneta da porta. Por estar destrancada, entrou. Encontrou o apartamento todo revirado, e um homem a fugir pela janela partida. Movendo-se cautelosamente no escuro para evitar a TV e o estéreo estranhamente colocados no meio da sala, o vizinho acendeu a luz de uma simples lâmpada pendurada no
tecto.
- Oh meu Deus! – ouviu-se a dizer com a voz embargada pela comoção.
Num segundo, já estava ao telefone a pedir ajuda. Um Michael Thomas seriamente ferido e inconsciente estava deitado no chão. Na sala reinava o sossego, agora. O único som era o barulho do peixe a debater-se, perto da cabeça de Mike. Gato contorcia-se entre os legumes e o monte de comida pré-cozinhada – uma mistura repugnante que começava a ficar vermelha ao misturar-se com o sangue que escorria dos ferimentos de Mike.

LIVRO 5 A viagem para Casa


A História de Michael Thomas e os Sete Anjos
Lee Carroll

A história de michel Thomas é uma parábola lindíssima. colocarei os capítulos em posts separados para melhor apreciação.

INTRODUÇÃO

No dia 8 de Dezembro de 1996, Kryon sentou-se diante de mais de 500 pessoas em Laguna Hills, Califórnia, durante o encerramento de um seminário. Numa sessão para contar histórias, que durou cerca de umahora, a caminho de Michael Thomas foi apresentada – um caminho nascido do desejo de um Ser Humano,cansado da Terra, se juntar à sua família espiritual e retornar para o Lar.

O próprio nome Michael Thomas representa os atributos sagrados e incríveis do Arcanjo Miguel (Michael) e as velhas energias de São Tomé (Thomas), o Incrédulo. Esta combinação representa muito do que nós sentimos como seres espirituais, embora sempre duvidando da nossa capacidade para nos movermos para a frente em direcção a um novo milénio, que apresenta novas demandas espirituais de crescimento e desafiosameaçadores.

A caminho de Michael para o Lar revela-nos, aos poucos, uma aventura através de sete Casas coloridas,cada uma ocupada por um Grande Anjo. Cada Casa representa um atributo da Nova Era, que nela está inserido como sabedoria, ensinamento, bom humor e uma visão interior daquilo que Deus quer que saibamos sobre nós mesmos. Ganhamos, também, uma visão da maneira como as coisas funcionam enquanto nos movemos através do novo paradigma da Nova Era.
Avançando para um movimentado e surpreendente final, a caminho de Michael Thomas revela aos homens uma mensagem cheia de instruções de amor, vindas de uma fonte espiritual que frequentemente deseja «lavar os nossos pés».

Se você alguma vez já perguntou a Deus: «O que desejas que eu saiba?» – A resposta talvez seja o que está aqui!
Junte-se a Michael Thomas na sua excitante caminhada. Pode ser que ela o leve a lembrar-se do seu próprio caminho.
Dedicado àqueles que compreenderam
que os homens têm o poder de mudar as suas vidas,
e que as coisas nem sempre são o que parecem!